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    Lendo, escrevendo e vivendo na Rede


    A elegância do ouriço, Muriel Barbery

    ,"Li tantos livros...

    No entanto, como todos os autodidatas nunca tenho certeza do que compreendi. Um belo dia, creio abarcar só com o olhar a totalidade do saber, como se de súbito nascessem ramificações invisíveis que tecessem entre si todas as minas leituras esparsas – depois brutalmente, o sentido se esquiva, o essencial me foge, e, por mais que eu releia as mesmas linhas, elas me escapam, cada vez mais, e então fico parecendo uma velha louca que acredita estar de barriga cheia só porque leu atentamente o cardápio.” (p. 53)

     

    Acabei hoje de ler A elegância do ouriço, e foi com pena que fechei o livro. Foi tristemente que me despedi da concierge com quem me identifiquei por todos esses dias (não mais do que duas semanas) que fiquei naquele imóvel da rue de Grenelle, pensando na "concordância de gostos e de encaminhamentos psíquicos" que havia entre nós (incluindo Kakuro).

     

     



    Escrito por lendonarede às 21h41
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    momentos descabelados

    No mns, ao mesmo tempo em que escrevo aqui:

     

    lilia diz:

    que estás fazendo?

    Maria da Graça diz:

    Traduzindo

    E tu?

     

    "Assustada com o que não vou dar conta de fazer, resolvi escrever um poema..." – respondi à pergunta.

     

    “Pena que chores tanto para ele sair”, comentou ela.

    E choro, mesmo: um descabelamento de lágrimas... Engraçado... - penso -, cabelos ralos e desalinhados, desbotados, desarrumação pela casa e desânimo são coisas que se misturam aos momentos de redemoinho da minha vida...

    Ainda bem que as leituras – mesmo que sejam muito diversas, o que pode traduzir essa mistura, essa desorganização – permanecem nos tons de sempre: vivas e me fazendo viver, nos momentos de insônia, nas horas em que o peito quer desaguar de tanto pensamento...

    Se "Tudo o que somos é resultado de nossos pensamentos" (Buddha), segundo a citação do dia, enviada pela Amélia, tudo o que escrevemos também o é.

    Enquanto repito para Grace, no msn, a citação (falávamos ainda do último poema que escrevi), ela retruca (um pouco alto demais – em maiúsculas, deve ter batido na tecla fixa... eu a estou atrapalhando, para variar, pois ela está em um difícil trabalho de tradução do português para o francês...  (esse é o problema – ou o encanto - do msn.. ficamos juntas, mas às vezes, acabamos por interferir no tempo e no trabalho dela, que está ali, online, e encontra um momento para responder)):

    Maria da Graça diz: “MUITO SÁBIO

    O NOSSO PROBLEMA É ESTE: PENSAMOS

    SÓ NÃO CONSEGUIMOS CONTROLAR O Q PENSAMOS!

    E depois, ela acrescentou, baixinho:

    tu consegues?

    não

    ninguém

    talvez os grandes mestres tibetanos

    Talvez... Fico pensando que eu iria gostar de passar um tempo no Tibet...

    Eu ia falar no livro que estou lendo, mas deixo para amanhã. Só conto que é um romance de Tolstói.

     



    Escrito por lendonarede às 12h20
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    O coração das trevas

     

    Depois dos livros cor-de-rosa, a leitura mergulha nas trevas! Reli o romance de Conrad mais uma vez. Estranhamente pareceu-me que o lia pela primeira vez. Lia um novo livro. Lembrava-me do trecho em que o narrador, no meio do nada tenebroso, encontra um livro em inglês, sobre navegação, com anotações feitas nas páginas no que lhe pareceu um código – depois descobre que eram notas feitas em russo. Lembrava-me também da mulher selvagem vestida de penas, peles e amuletos, e da outra, a Prometida, para a qual o narrador sente necessidade de mentir. As últimas palavras dele eu também lembrava: “O horror! O horror!”. Se não me engano, li o livro pela terceira vez... e permanece o enigma, o enigma do homem, que parece envolver a todos – bárbaros e civilizados – que conviveram com o Sr. Kurtz ou que pelo menos dele ouviram falar.

    Ainda me pergunto: A que se referia ele exatamente ao pronunciar suas últimas palavras?

     



    Escrito por lendonarede às 19h37
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    na rede, em Salinas

    Li, nesses últimos dias, na ampla rede de pano, com varanda de crochê, que recebe todo o vento do mar de Salinas pelas portas de vidro da sala que sempre estão abertas, um daqueles romances de amor da "biblioteca das moças" de antigamente. Et pourquoi pas? Só o que justificaria a censura por ler um livro tão superficial seria o tempo que poderia estar sendo usado para ler um Mia Couto (que me espera na cabeceira, em Belém) ou reler um Cervantes (o Don Quixote, cuja nova edição estou hesitando em comprar - não, por falta de lugar em casa e sim, pela delicadeza da edição). Mas ainda não disse o nome do livro que li ao sabor do vento da praia: Aprendendo a seduzir, de Patricia Cabot. Provavelmente eu o esquecerei logo, logo, mas durante a leitura eu pude fugir do meu pensamento preocupado, pude esquecer as ansiedades do atual cotidiano. Quantas vezes li livros assim que me proporcionaram momentos de uma breve evasão? Livros que oferecem uma história de leve sabor, na percepção de um mundo escrito, que passará na brisa rápida do tempo, cujas palavras sem perfume não deixarão marcas, mas que, durante a leitura, embala o esquecimento em suas páginas inodoras...

    A renda. Havia muita renda. Com flores, padrão de coração, rendas tão delicadas como teia de aranha. Quantas jovens, Caroline imaginava, haviam ficado ali, diante daquela mesa, tocando com os dedos aquela renda? Jovens esperançosas, jovens alegres. Provavelmente não muitas delas, de pé ali, não haviam se sentido assim, como se pudesse cair em pranto a qualquer momento.

    Fico me perguntando por que essa simplicidade, essa história quase comum, talvez ligeiramente inspirada nas Liaisons dangereuses, embora aguada e açucarada demais, me fez ir até o fim do livro... Lembrei também de Ódio, sinal de amor, um livrinho de bolso, dos que se vendiam nas bancas de revista, antigamente, ou de Johnny, chauffeur russo, e do Rei de Kidgi, esses, sim, romances previsíveis mas não por isso menos deliciosos, da coleção cor-de-rosa da minha bisavó, que os tinha também em francês e de quem herdei alguns exemplares... Onde estarão? Certamente ao lado de alguns outros poucos livros empoeirados que ficaram nas prateleiras do atelier fechado há anos... Vou salvá-los urgentemente. São boa leitura: aconchegaram-me tanto quanto o que me fez vir aqui escrever neste blog, esquecido também, mas onde gostaria de, a partir de agora, ir registrando minhas impressões de leitura como costumava fazer, noutras épocas, nas páginas dos meus diários.

     



    Escrito por lendonarede às 13h16
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    Tempo retomado em 2010

    Tudo está jogado no tempo. Com essa frase o autor inicia a introdução de sua tese sobre Fernando Pessoa.

    Sobre a metafísica em Fernando Pessoa. O tempo é a mais visível das questões metafísicas, pelo menos quando se olha para sua ação em uma posição de trás pra frente.

    Ontem, foi o pensamento que me absorveu no aniversário em que fui, quando observei as pessoas reunidas ali, alegres, despreocupadas. Jogadas no tempo. Mas não acontecia comigo igual ao personagem do temps retrouvé... eu, ali, perdi mais um pouco do tempo. Assustei-me com as crianças de dez anos atrás, hoje lindas moças namorando, as jovens senhoras já plastificadas, corpo amolecido, sorriso declinando. Dizia-me mentalmente que elas deveriam estar pensando na ruína em que me tornei, mas meu olhar é interior, não me vejo toda hora, evito, me escondo... Não há recuperação no tempo, Marcel, não há... Consolo-me com a esquecida imagem de uma alma.



    Escrito por lendonarede às 13h56
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    Metablog... de tão antigamente...

    Descaradamente

    .

     

    Cara e coração desnudos

     

     

    Quinta-feira, Abril 29, 2004

    Miniatura:

    verga-se o canto
    cacos de louça n'alma pintada
    flexo fio de lágrimas
    na palavra ser

    (a tinta escorre em minha tarde
    os pássaros expulsam-me

    - estranha espécie tardia de mulher)

    postado por: OUTRA DE MIM 11:09 PM

     

    Quinta-feira, Abril 15, 2004

    Se eu pudesse dizer o quão miserável me sinto! Digo-o, mas apenas para mim.
    Miserável na solidão da intimidade. A íntima verdade que jamais se conta a alguém, pois quando se chega a sentir o desatino, nãomais com quem dividi-lo.
    Olhar o corpo , na escuridão da vida, é ser miserável. E quando o corpo se dissolve, se perde sem tato, se esconde sem toque, quando nãosentido o cheiro, nãovertigem no sabor... não há o outro... E sem o outro que mãos desabrochariam a flor que fenece? Que dedos sentiriam o âmago de si mesmos? Que verdade confessar?
    Miserável esta roupa íntima para ninguém, este desejo despudorado... para quem?
    Rasga esse lírio falso, esse crivo de palha que jamais esconde a luz, esta raiz que perfuma o que não existe mais.
    Se eu pudesse dizer não precisaria. Se houvesse ouvidos a confissão seria outra.
    O tempo é miséria, quando se está .

    Digo-o, para mim, apenas.

    postado por: OUTRA DE MIM 4:33 PM


    Segunda-feira, Fevereiro 23, 2004

    tempos depois dispo o silêncio
    rasgo a palavra sem pudor
    retorno ao relevo surdo do meu leito
    da estrada do rio da alva madrugada

    postado por: OUTRA DE MIM 11:57 AM

     

    Domingo, Fevereiro 08, 2004

    ddescaradamente posto aqui meu coração de rua
    não repare sua cor cansada e seus roxos de estrela
    é suave a vertigem da vida no rosto da noite
    sem drogas na poesia
    sem sangue nas palavras

    descarados são os gestos atrás do verso -
    e que mãos riscam o verbo no teu (meu) corpo
    quando a palavra é o sexo da vida?

    descaradamente rasgo a primeira madrugada
    sou cara e cor
    des cara
    des coro

    des amor

    postado por: OUTRA DE MIM 5:43 AM



    Escrito por lendonarede às 22h45
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    Pensamento

     

     

    "Amar é mudar a alma de casa"

       Mário Quintana

    No meu tempo se dizia pensamento, hoje se diz citação. E como estamos na era das citações...



    Escrito por lendonarede às 01h37
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    http://xav.zoy.org/photos/laurentides/lac.JPG



    Escrito por lendonarede às 15h32
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    Silente

     

    Silente lago de serenas águas

    Que turbilhão esconde teu abismo?

    Sonhos afloram despontando a esmo

    Esquivos juncos a beirar-te as mágoas.

    ...............................................

     

    E vejo teu rosto, teu sorriso leve

    Desejo tuas mãos a me cantarem rosas

    Penso tua boca sendo minha sede

    Ouço suspiros neste sonho breve.

     

    Não há revolta no vazio da vida

    Teu corpo imóvel não me reconhece

    Repete o rito, muda a minha prece

    Nesta ciranda de paixão perdida.

     

    ................................................

    Eterno paço de lentos passeios

    Nenhuma onda crispa a superfície

    Enquanto no leito de minha alma vibra

    O vento triste dos loucos anseios. 



    Escrito por lendonarede às 15h30
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    Escrito por lendonarede às 19h14
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    ... dos meus 15 anos

     

    Ele estava sozinho olhando uma rosa,

    Sentado no banco da praça.

    Lá na torre da Igreja, o sino bocejava.

    Era tarde e ele estava sozinho.

    E era nele que pensavam as idiotas

    formigas que trabalham o dia todo.

    Então o sol se foi.

    A lua veio, e vieram estrelas que

    corriam e caíam depois.

    Ele dormiu no banco e a rosa murchou de noite.

    Quando o dia chegou e o sol espiou lá de longe,

    Tudo ficou cor-de-rosa, mas ele não acordou.

    As nuvens derreteram-se como mulher

    dengosa e choraram chuva, mas ele não acordou.

    E dormia com um sorriso de rosa nos lábios.

     

    (Canadá, 3-7-67)



    Escrito por lendonarede às 19h07
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    OS LOUCOS NÃO SENTEM FRIO...

                                      NAU DOS LOUCOS, Bosch
        Os loucos não sentem frio.
        Ah, enlouquecer e amar
        a lua que está no rio.
        Ser reflexo do que sinto,
        ser outra do que não sou.
            De alma pura e transida
            -- os loucos não sentem frio.

        Viver no mundo que fiz
        de lentas chuvas de estio,
        nos olhos, a identidade,
        no eco, o som da verdade.
        Quão bela vive às avessas
        a lua dentro do rio!
             A alma é pedra dormida
             e, louca, não sente frio.

            Viverias loucamente
            nas luas lentas que crio?
            No inverso do poema,
            no silêncio, no vazio,
            nas lacunas das palavras,
            na luz que bebeu o rio?

               Na líquida loucura d' almas
               de amores que não têm frio?


     


    Escrito por lendonarede às 17h03
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    Puck: Como! Vão representar uma peça? Serei espectador, talvez, um ator também, se achar motivo.

                                                                                                               Shakespeare

     

    Há dez anos ela foi apresentada à Internet. Na sua cidade, estavam começando a surgir os servidores, e alguém insistiu em mostrar-lhe o caminho para dentro da máquina. Era uma conexão do seu computador com o mundo inteiro, disseram-lhe. Com a Internet pode-se pesquisar, visitar museus, viajar e até conhecer pessoas novas e conversar com elas em salas criadas para chats, bate-papos virtuais. Mas, de jeito nenhum! Jamais iria – imagine! – conversar com pessoas que não conhecia, ela tinha mais o que fazer!!! Ela ficou pensando. Ia deixando pedaços da sua vida não vividos, nos tantos afazeres e deveres cotidianos, maquinalmente cumpridos e esquecidos, sem nenhum registro... Pensou nos seus problemas caseiros, pequenos e prosaicos, que naquela época assumiam proporções assustadoras em seu pensamento, tipo preocupações típicas de mãe, filha namorando, brigando com o namorado, chegando tarde em casa. Ah, ela não dormia sem ver a filha aconchegada em seu quarto. Ela suspirou e aceitou aprender o caminho para o ciberespaço.

    Já tinha prática em ligar o computador, o teclado não era mais problema (ela tinha feito datilografia, e, agora, era craque em digitar os seus trabalhos da escola). Um clique a mais, uma espera a mais, e a lenta conexão de dez anos atrás era a ponte entre ela e a fantasia. E assim, suas noites se povoaram. Ela ia ficando conectada horas e horas na Internet, penetrando em um mundo desconhecido, um mundo de possíveis, um mundo escrito.

    O momento de entrar naquele espaço cria um vazio no tempo, é uma espera que vai modificar o próprio sentido do tempo. Primeiro, liga-se o computador. Entre o concreto do hardware" e a metafísica do "software" introduz-se o silêncio.[1] Depois da tela iluminada, a conexão com o ciberespaço, e o universo está ao seu alcance, on-line. No navegador, abre-se a página do universo on-line, que ela chama com intimidade pelo feminino: a UOL. Ali, escolhe a sala que freqüenta e se ocupa alguns segundos com as operações exigidas para entrar: dar a senha, escolher um nickname, copiar o código de acesso, meras ações cumpridas com gestos quase maquinais. Não é isso mesmo? Fazer parte da máquina. Respirar como a máquina, dar para/na máquina cérebro e coração. O coração, no início, batia de ansiedade pelo desconhecido. Agora (dez anos!), o local faz parte de seu mundo, ela entra em cena vestida com seu nick que se tornou, para ela, uma segunda natureza.

    Imediatamente se cria uma “nova teatralidade”, a teatralidade eletrônica e virtual. Ali, além de se transformar na autora do seu texto, na leitora do texto dos seus interlocutores, torna-se, com eles, personagem desses textos, passa a ser texto. Transfigura-se: torna-se palavra.

    Então, como acontece com Puck, a magia lhe pertence: sentada em seu quarto, na cadeira de espaldar alto, ela participa do espetáculo, o cria, o escreve enquanto ele acontece. Quando lê é como se ouvisse as vozes dos outros personagens. Dialogar com eles, é espectadora e atriz ao mesmo tempo. Desliza para dentro daquele mundo (metaforicamente) em que todos os sentidos explodem das palavras. E tem a sensação de perder o peso da existência real. Torna-se volátil. Experimenta a liberdade física e social. Sua identidade se fará pela palavra. Sua aparência é o nick. Metamorfoseia-se de acordo com a máscara inventada e prepara-se para reencontrar pessoas que jamais viu, mas que são como colegas, como velhos amigos, amigas de infância, cúmplices, que fazem parte da sua comunidade, da sua “tribu". Um baile de máscaras.



    [1] “Entre le concret du "hardware" et la métaphysique du "software" s'introduit le silence São palavras de André Lemos



    Escrito por lendonarede às 19h56
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    E assim se fez...

     

    Assim como os cosmólogos nos dizem que o espaço físico de nosso universo

    surgiu numa explosão a partir do nada, cerca de quinze bilhões de anos atrás,

    assim também a ontologia do ciberespaço é ex nihilo.

                                                                                    Margareth Wertein

     



    Escrito por lendonarede às 12h29
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